"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Ego Sum

Os versos não somatizam.
Os versos não adoecem.
Vida de palavra
é boa por demais.
Nem mesmo defunto
aqui fenece.

Deve ser por isso
que Deus é Verbo.
Evocado, vive.

É
Foi
E sempre Será.

(Raquel Amarante)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Padecer no paraíso

Amar é totalmente intuitivo.
É conciliar o indecifrável
ao desejo de permanência.

Permanecer onde os
pés já não tocam o chão.

Amor é a rosa plantada
A rosa colhida
O buquê
A coroa de flores.

Está na tristeza
e na alegria.

Saber amar,
quem diria,
é "padecer no paraíso."

Raquel AMARante

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Maktub

Quantas vezes nos perguntamos
pra quê Matemática?
Pra quê solitários pontos no universo
Planos reais e imaginários
Retas infinitas, vidas...
Pra que tal sequência de
perdas, ganhos
multiplicações, divisões?
E essas curvas
feitas de retas
que deixamos de percorrer...
E esses círculos, quadrados, triângulos
por todos os lados
me fazem crer
Deus é engenheiro.
E nós,
arquitetamos com ele
com o pouco de conhecimento
das paletas da existência.

Não estava escrito não.
Tava desenhado,
rascunhado,
para darmos vida ao desenho.

(Raquel Amarante)

domingo, 12 de outubro de 2014

Astronômico

Há um caos harmônico
em cada mapa astral.
E projéteis arquitetônicos
no céu, afinal,
a vida é magnética.
Por vezes, patética.
Escorregamos na casca que jogamos
amamos o que não compreendemos
nos achamos nos risos que convergem
no olhar que contagia
ao sabor do toque
que diz "te quero"
Somos o que queremos.
Tem vezes que eu só quero sexo.
e um dia depois, 
quero apenas que o esmalte 
não saia da unha, 
no outro, quero amor eterno,
e me convenço, o terno já basta.
algumas outras, celebro a distância
e outras vezes,
só quero música alta,
ou não sentir aquela falta.
Tem dias que só queremos
viver, e não pensar,
cantar no The voice
dançar como o Michael
tocar feito Clapton
Tudo sem sair do quarto.
A vida é magnética.
Por vezes, patética.
Somos astros da nossa história
sempre a nos mover
sob estímulo de forças invisíveis
que nos atraem.

(Raquel Amarante)



terça-feira, 16 de setembro de 2014

Encontros no Shopping Montes Claros num dia comum


Um corte em V nas costas, decote no vestido azul royal, parecia até verão. Um belo e magro declive lombar. Com uma pinta de mistério, de beleza ou talvez, insinuação? Carregava sacolas de lojas, estava num shopping, no Montes Claros...

Passou pelo cenário de mesas quase vazias, crianças corriam pelo shopping porque é julho. Ouviu alguém gritar: Lorena! E este alguém se aproximou e fitou-a com encantamento. Esboçou-se no silêncio um estranhamento quando a moça foi dizendo seguidamente: “Lorena, que bom revê-la!”, “Como está linda esta ex do meu irmão!”, “Caio está ali, vou chamá-lo” , “Caio, olha quem está aqui, Lorena, a sua ex!”.

Aproximou-se ela e o Caio da Lorena, ambos olhavam-na com encantamento, o Caio calado. Até que o silêncio daquele instante foi quebrado. 

_ Marcela, eu não me chamo Lorena e não sou a ex do seu irmão. Não se lembra de mim? Luiza, sua ex-colega do colégio, do ensino fundamental e das séries iniciais. Está lembrada?

Marcela esboçou seu mais altivo e sedutor olhar, olhou nos olhos de Luiza e deu-lhe um abraço ávido e aconchegante como se fosse um encontro de família. Luiza foi envolvida naquele abraço e expressou sua ternura no mesmo pois se encontrara com uma colega que não via há muitos anos. 

Marcela olhou-a, abraçando-a e aproximou seus lábios dos lábios de Luiza, beijando sua boca de súbito e de forma envolvente, bradou: Como você está linda! 

Luiza, totalmente desnorteada, lembrou-se que não poderia esperar nada mais, nada menos de Marcela... O Caio apenas observava calado. Enquanto as pessoas que passavam apreciaram a cena com reprovação... 

Marcela: Mas então, quanto tempo... O que anda fazendo?

Luiza: Acabo de me formar e estou só relaxando um pouco.

Marcela: Formou-se em que?

Luiza: Em Matemática.

Marcela: Acho isso surpreendente... Eu acabo de chegar do Sul. Estava morando em Florianópolis. (Pegou nas mãos de Lívia) e disse: “Estou de volta! A gente se vê... Montes Claros é pequena e os sonhos enormes.” Sorriu e saiu.

Marcela parecia ser a mãe do inesperado... Sempre... Luiza sentou-se na praça de alimentação e nostalgiou-se por algum instante...

Marcela, mulher desde os 6. Desde o prézinho o algo de um ‘feminino’ vivia nela. Nos cuidados com a pele, os esmaltes e nas sobrancelhas que iam sendo feitas. Altiva, menina muito bela. Chata e cri cri para Luiza que achava idiota ela fazer os meninos carregarem a cadeira dela como uma rainha, durante o recreio. 

Marcela criou o primeiro clube de meninas da escola, aos 6 anos de idade. Existiam critérios para se entrar neste clube, que a Luiza não lembrava porque achava maior babaquice. As meninas tinham que se vestir de maneira parecida, combinar cores, esmaltes e a Marcela era a líder e coordenava as atividades do clube. Este clube estava dando um bafafá na escola, Luiza quis conhecer, mas uma das regras era que as meninas deviam andar sempre juntas, compartilhar os lanches, passar o recreio dentro da sala num local específico e jurar segredo para tudo que acontecia no clube. Luiza não gostou das regras, afinal, eram umas menininhas “pats” e isto era notório desde aquela tenra idade. Parecia uma mini maçonaria de garotas pats. E a Luiza nunca gostou de ficar presa em grupos, mas se encantava com a forma que os grupos iam se formando, feito equações polinomiais.

Admirável é que a Marcela desde pequena parecia dominar Maquiavel, além de muito inventiva, carregou por muitos anos a imagem de melhor ser temida que amada. Muitos a odiavam, mas sempre a respeitavam. As garotas queriam a aprovação dela para tudo... Ela tinha uma vastidão de seguidores e naquele tempo nem se falava em twitter, facebook... Como é que um serzinho daquele tamanho podia ter tanto poder?.. (risos)

Marcela mudou no ensino Médio, mantinha-se sedutora dos pés a cabeça, nobre, magérrima e caucasiana, de longos cabelos negros, nariz com a finura de agulha, mas com um quê de cortesã em seu olhar e muito aplicada no estudo das Línguas e Letras.

Todavia, sempre carregava algo de esnobe, inatingível, cáustica no sarcasmo e só tratava os seus com estima. Adorava e dominava a vernácula, quando se tratava das indiretas e de uma semântica ambivalente...

Obviamente, Luiza e Marcela não eram amigas, tampouco próximas. Luiza era um tipo de estudante ocasional que não tinha cadernos e sentava-se do lado oposto de Marcela e suas amigas, e não ligava para nada do que Marcela achava primordial. Luiza nem mesmo se lembrava de uns papos e propostas que Marcela apresentava no segundo ano, num tempo em que Marcela estava estranhíssima... 

Este é o esboço de uma história que não termina nem começa aqui. Talvez Luiza tenha que pegar seu all star azul e calçar para poder se aclimatar com a ideia de escrevê-la. Enquanto isso, Marcela beija o espelho com seu batom tom de canela, mas nunca se acostumou com a ideia de ser tão branca a ponto do carmim soar sempre tão melhor que o marrom.


(Raquel Amarante)



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