"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Encontros no Shopping Montes Claros num dia comum


Um corte em V nas costas, decote no vestido azul royal, parecia até verão. Um belo e magro declive lombar. Com uma pinta de mistério, de beleza ou talvez, insinuação? Carregava sacolas de lojas, estava num shopping, no Montes Claros...

Passou pelo cenário de mesas quase vazias, crianças corriam pelo shopping porque é julho. Ouviu alguém gritar: Lorena! E este alguém se aproximou e fitou-a com encantamento. Esboçou-se no silêncio um estranhamento quando a moça foi dizendo seguidamente: “Lorena, que bom revê-la!”, “Como está linda esta ex do meu irmão!”, “Caio está ali, vou chamá-lo” , “Caio, olha quem está aqui, Lorena, a sua ex!”.

Aproximou-se ela e o Caio da Lorena, ambos olhavam-na com encantamento, o Caio calado. Até que o silêncio daquele instante foi quebrado. 

_ Marcela, eu não me chamo Lorena e não sou a ex do seu irmão. Não se lembra de mim? Luiza, sua ex-colega do colégio, do ensino fundamental e das séries iniciais. Está lembrada?

Marcela esboçou seu mais altivo e sedutor olhar, olhou nos olhos de Luiza e deu-lhe um abraço ávido e aconchegante como se fosse um encontro de família. Luiza foi envolvida naquele abraço e expressou sua ternura no mesmo pois se encontrara com uma colega que não via há muitos anos. 

Marcela olhou-a, abraçando-a e aproximou seus lábios dos lábios de Luiza, beijando sua boca de súbito e de forma envolvente, bradou: Como você está linda! 

Luiza, totalmente desnorteada, lembrou-se que não poderia esperar nada mais, nada menos de Marcela... O Caio apenas observava calado. Enquanto as pessoas que passavam apreciaram a cena com reprovação... 

Marcela: Mas então, quanto tempo... O que anda fazendo?

Luiza: Acabo de me formar e estou só relaxando um pouco.

Marcela: Formou-se em que?

Luiza: Em Matemática.

Marcela: Acho isso surpreendente... Eu acabo de chegar do Sul. Estava morando em Florianópolis. (Pegou nas mãos de Lívia) e disse: “Estou de volta! A gente se vê... Montes Claros é pequena e os sonhos enormes.” Sorriu e saiu.

Marcela parecia ser a mãe do inesperado... Sempre... Luiza sentou-se na praça de alimentação e nostalgiou-se por algum instante...

Marcela, mulher desde os 6. Desde o prézinho o algo de um ‘feminino’ vivia nela. Nos cuidados com a pele, os esmaltes e nas sobrancelhas que iam sendo feitas. Altiva, menina muito bela. Chata e cri cri para Luiza que achava idiota ela fazer os meninos carregarem a cadeira dela como uma rainha, durante o recreio. 

Marcela criou o primeiro clube de meninas da escola, aos 6 anos de idade. Existiam critérios para se entrar neste clube, que a Luiza não lembrava porque achava maior babaquice. As meninas tinham que se vestir de maneira parecida, combinar cores, esmaltes e a Marcela era a líder e coordenava as atividades do clube. Este clube estava dando um bafafá na escola, Luiza quis conhecer, mas uma das regras era que as meninas deviam andar sempre juntas, compartilhar os lanches, passar o recreio dentro da sala num local específico e jurar segredo para tudo que acontecia no clube. Luiza não gostou das regras, afinal, eram umas menininhas “pats” e isto era notório desde aquela tenra idade. Parecia uma mini maçonaria de garotas pats. E a Luiza nunca gostou de ficar presa em grupos, mas se encantava com a forma que os grupos iam se formando, feito equações polinomiais.

Admirável é que a Marcela desde pequena parecia dominar Maquiavel, além de muito inventiva, carregou por muitos anos a imagem de melhor ser temida que amada. Muitos a odiavam, mas sempre a respeitavam. As garotas queriam a aprovação dela para tudo... Ela tinha uma vastidão de seguidores e naquele tempo nem se falava em twitter, facebook... Como é que um serzinho daquele tamanho podia ter tanto poder?.. (risos)

Marcela mudou no ensino Médio, mantinha-se sedutora dos pés a cabeça, nobre, magérrima e caucasiana, de longos cabelos negros, nariz com a finura de agulha, mas com um quê de cortesã em seu olhar e muito aplicada no estudo das Línguas e Letras.

Todavia, sempre carregava algo de esnobe, inatingível, cáustica no sarcasmo e só tratava os seus com estima. Adorava e dominava a vernácula, quando se tratava das indiretas e de uma semântica ambivalente...

Obviamente, Luiza e Marcela não eram amigas, tampouco próximas. Luiza era um tipo de estudante ocasional que não tinha cadernos e sentava-se do lado oposto de Marcela e suas amigas, e não ligava para nada do que Marcela achava primordial. Luiza nem mesmo se lembrava de uns papos e propostas que Marcela apresentava no segundo ano, num tempo em que Marcela estava estranhíssima... 

Este é o esboço de uma história que não termina nem começa aqui. Talvez Luiza tenha que pegar seu all star azul e calçar para poder se aclimatar com a ideia de escrevê-la. Enquanto isso, Marcela beija o espelho com seu batom tom de canela, mas nunca se acostumou com a ideia de ser tão branca a ponto do carmim soar sempre tão melhor que o marrom.


(Raquel Amarante)



terça-feira, 9 de setembro de 2014

É Primavera

não sou responsável
pela ferida
que lhe dói
aberta pela vida.

regue mais água
se envolva
que o tempo é propício
para nascerem belas flores.
brotarem os melhores amores...
esqueça de vez essas chagas
que traz teu destino tão cármico
que fez teu mercúrio retrógrado
pois veio aprender a amar de novo
a confiar de novo
a perdoar de novo
receba as flores desta vez.
receba as flores desta vez.
É primavera!

(Raquel Amarante)







_______________________________
Ela ainda nem chegou, a primavera, mas já antecipou em mim a poesia de um equinócio onde brotam novos amores. E que é preciso celebrar toda nossa capacidade de florir, de amar, de sorrir pós o já demodê outono/inverno. ;)




domingo, 17 de agosto de 2014

Meu filho, fica aí

Cê que tá aí, parado, ultrapassado,
datilografando suas emoções.
Meu filho, fica aí.
Vem pra esse mundo tecnológico não.
Aqui tem uma tal de fonte, que muda as letrinhas de jeito
quando a única fonte mesmo
deveria ser aquela
que faz coração bater no peito.


Liberdade pulsa na velocidade
do carrinho de roleman.
Com o tempo, vai-se o carrinho
fica só o man.
Meu filho, fica aí.
Não era direção hidráulica
que fazia seu carrinho voar.
Eram teus sonhos.


Meu filho, fica aí.
Não deixe morrer
teus valores
por bens materiais.
Não te deixe morrer, meu filho.
Não te deixe morrer.


(Raquel Amarante)



sábado, 16 de agosto de 2014

Saturno - Senhor do tempo - Senhor do karma

Quando eu vim para este mundo
eu devia saber porque.
Eu devo ter lido umas instruções
sobre a vida
porque sou prevenida.
Prevenida de fazer tudo
ao contrário
de errar em todas as chances
de erro.

Ninguém quer errar.
Há certas coisas que a gente não entende
coisas tão brutas como saber para que
como a criança que pergunta
o que é, para que serve
me sinto.

Sinto uma urgência de desvendar
toda a história e porquês
toda a vida, todos os sentidos.
Não basta sentir.

Isso não me torna nada além
de alguém que anda em círculos
presa em sua própria órbita
girando em torno de si mesma.

Isso não é o caminho...
Mas é preciso, às vezes,
assentar sobre si e escutar seus próprios
motivos.

Cansada dos erros de outrora
reflito, sem aflição,
faço o que devo.
Estou no limite da minha busca
eu tenho a plenitude da incerteza
do vão das coisas que emitem sons sem dizer.


Não existe pouco caos...
E há quem seja louco
de guiar as pessoas estando cego.

Não me apetece
fazer alguém se perder de si.
Talvez eu nem deva
me pronunciar.
Talvez não tenho nada a dizer,
além do quanto sou eu,
numa experiência
pouco passível de alteridade.

A natureza
esta, talvez,
tenha muito a dizer.
Afinal, dizem que ela ainda existe.
Andam dizendo por aí
que se a terra for arada,
a semente for plantada,
regada,
iluminada,
cuidada,
amada,
dizem até  que ela nasce...
Coisas sem explicação
deste mundão de Deus...
Quem é que tem tempo para isso!

(Raquel Amarante)




quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ensaio sobre o amor nos tempos de propriedade privada

Fico pensando... Quais espíritos a gente alimenta? Quais amores a gente aumenta? Quais saudades são impossíveis de se distrair? Quais livros nos chamam a atenção na livraria, na biblioteca...? É o amor e o que amamos que nos caracteriza nesta vida. Nosso espirito é tão livre e abissal que temos, por vezes, que contorná-lo de algumas indicações e contra-indicações.

Um velho, uma vez, me disse: Padece o que tiver de padecer por amor, mas jamais deixe de amar. 

Meu camarada, e tem como? Não amar? Como é isso?

Minha filha, vocês jovens, tatuam o amor nas costas, escrevem cartas derramando corações, vocês são só o engodo! O amor é tão maior que tudo isso que essa minha barba de 40 anos de contra-cultura “arrepeia” e ora interroga: quem vocês amam e por quê?

Pense menina, no afeto, que se desdobra. O afeto é a dobradiça da porta, ele a movimenta, abre, fecha. Se não houver a dobradiça, não há porta. Mas há quem encha esta porta de trancas, cadeados, placas de perigo. Portas não foram feitas para fechar, foram feitas para abrir.

_Creio estar equivocado, senhor... As portas sinalizam que há algo de particular sendo guardado, um território, com donos. As portas não podem abrir para quem quiser, minha portas eu não abro a qualquer um.

Foi imputado a vocês jovens um grande mal. O de que o amor é uma propriedade privada. O que há na privada, a não ser merda? 

Brinco, mas se não é capaz de ver para além dos muros da sua casa, minha cara... Se ama o que soa belo apenas, não traz a consciência do que é mesmo fonte de vida. Quando pergunto a quem você ama não é retorica... Para quem você fecha sua porta? 

Eu não deixo minha porta aberta para todos, nem os programas do governo, que se diz democrático, fazem isso. (risos)

Todos é um conceito inatingível, que nos afasta do que há de mais próximo, pois parece impossível... Digo de manter sua porta entre aberta, capaz da ternura, capaz da febre juvenil de amar sem medida, mas, capaz também do amor a quem lhe fomenta um notável descrédito, a quem seria incapaz de um negócio com essa sua propriedade privada, até que não hajam propriedades privadas e nem portas e sejam livres os amores...

Eu acho mesmo, senhor que não sei o nome, acho que o amor sim é um conceito inatingível...

Você tem boas capacidades de amor, mas você está muito patológica, menina. Veja bem, o amor tornou-se propriedade privada. Segue, derrubando-a. O amor não precisa de cercas. Por muito tempo eu lutei contra o sistema político que nos outorga o direito ao ‘ter, mantendo o ter’. Hoje vejo que ter é sim preciso, mantendo, sobretudo, o ser... Não vejo como vãs as lutas materiais. São propícias nos tempos propícios. Mas não só de pão vive o homem disse um sábio... Esfacelar a propriedade privada começa em nós. Amamos de forma desigual e pleiteamos direitos à igualdade... Se o amor começa em nós, porque tantas lutas para galgar mais e mais fora de nós? As pessoas se fizeram escravas da propriedade privada, do amor aos seus, apenas... O trabalho é a grande crucifixão dos nossos tempos, mas, sem qualquer apelo a uma salvação, é demasiado pena... Pena de morte... Repara nos seus rins, eles vão te matar... Mas você, só se preocupa com ganhos, com o olhar do outro, porque nesta sociedade de privadas, não basta tê-las, é preciso que sejam banhadas a ouro, para sei lá, as fezes boiarem mais bonitas, por certo...

O amor começa no cuidado! Cuida assim, de si. Pare de se matar. Isso é urgente! Os alicerces da sua propriedade ficarão, você não. Esse cuidado com você é o primeiro passo para cuidar de qualquer coisa que tenha vida. Respira melhor os teus ares. 

As pessoas temem parar, parar nos tempos atuais é algo melindroso, é perder tempo, e tempo é... Prefiro não dizer. Eis uma crença de grande bestialidade social a nós imputada. Pare, se aquiete, não confunda lugar ao sol com morrer chamuscado. Apreende o amor querida, que está no cuidado. Não jogue seu amor na privada. Se egoísta o for, já não é amor... Cuide das dobradiças que ainda existem, desses afetos inveterados que travam suas portas.

Há em extensas crenças a máxima de que o amor no seu afã se concede no paraíso, no Reino do céus. Cuide do seu céu, que não está na metáfora do horizonte ou do amanhã. Este amanhece com você a cada dia. Seu ser é seu céu. Cuide dele e faça deste um lugar de cuidado, pois então nem portas terá, mas portal, sempre aberto e capaz de receber e dar amor indistintamente. 



(Raquel Amarante - 20/07/2014)

All you need is love -  The Beatles

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